
Alta na bomba vai além de conflito.
A alta dos preços dos combustíveis nos postos é resultado de uma combinação de fatores, na visão de fontes do setor. A lista inclui as cotações mais altas do petróleo, leilões da Petrobras realizados a preços de mercado, acima dos praticados nas refinarias, e importações.
Para as fontes, a culpa pelo preço alto é da guerra, um fator externo mas que afeta o mundo inteiro. Parte do problema, dizem executivos da distribuição e revenda, está com a Petrobras, uma vez que a empresa desorganiza o mercado ao vender derivados com preços defasados nas refinarias e, ao mesmo tempo, fazer leilões cujos preços têm “ágios”.
Com a guerra no Oriente Médio, o preço médio do diesel S-10 ao consumidor situou-se, na última semana, em R$ 6,89 por litro, segundo a Petrobras, alta de 12,03% sobre o preço médio da semana anterior, de R$ 6,15 por litro. Os R$ 6,89 referem-se à coleta de preços entre a semana de 8 e 14 de março, quando a guerra estava em pleno curso. O prolongamento do conflito e as incertezas para resolvê-lo só têm agravado a situação.
O Sindicato Nacional de Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), que representa grandes distribuidoras de combustíveis, pediu ao governo providências para que a Petrobras retome leilões de combustíveis, suspensos pela companhia nesta semana. A ANP determinou na quinta-feira (19) que a Petrobras oferte ao mercado imediatamente os volumes de combustíveis referentes a leilões da companhia que foram cancelados.
O Valor apurou que o Sindicom enviou carta aos ministros de Minas e Energia e da Fazenda sobre o cenário atual do mercado de combustíveis. A entidade também enviou a carta ao vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), ao ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, e à diretoria da ANP.
Segundo uma das fontes da distribuição e revenda, pode até haver algum posto com preços mais elevados que geram margens mais elevadas, mas é algo isolado, porque ninguém quer perder mercado. Quem sobe muito os preços nas bombas, diz a fonte, corre o risco de perder clientes para outros estabelecimentos. A fonte ressalta que os preços nas bombas são livres, diferentemente do refino, que tem a Petrobras como principal agente, com mais de 50% do mercado.
Com preços externos mais altos, se registra queda nas importações. Segundo uma fonte, os pedidos de importação registrados em sistemas do setor, para abril, somam 1,5 milhão de metros cúbicos (m³). Até quinta-feira (19) só haviam sido confirmados pouco mais de 300 mil m³. “Há um desalinhamento do mercado. Não tem produto mais caro do que aquele que falta”, disse a fonte.
A ausência de paridade de preços com produtos importados, cortes de pedidos adicionais e suspensão dos leilões da Petrobras indicam tensão no abastecimento em meio a cenário geopolítico, avalia Abel Leitão, presidente-executivo da Brasilcom, entidade que representa distribuidoras regionais. Outra fonte do mercado reitera que o suprimento passou a ser uma preocupação maior do que o preço, especialmente para abril, já que um navio leva 15 dias para chegar ao país com cargas de diesel. Essa fonte também reconhece que pode haver algum posto que esteja aproveitando o momento para recompor margens, mas não é uma situação generalizada.
VALOR ECONÔMICO
20/março/2026
Fábio Couto – Do Rio