
Petrobras descarta falta de diesel, mas mercado vê risco de desabastecimento em abril.
Em meio à escalada da crise do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio, a Petrobras afirma que não há risco de desabastecimento de diesel. Em nota, a ANP também afirmou que “não identifica restrições à manutenção das atividades ou à disponibilidade de combustíveis no mercado doméstico, considerando as fontes usuais de suprimento do país e as importações”, mas anunciou que irá monitorar estoques e importações e determinou que a empresa retome os leilões de oferta de gasolina e diesel.
Agentes do mercado e especialistas alertam para o risco de falta de combustível. A Abicom projeta a possibilidade de desabastecimento de diesel já em abril. O Sindicom, que representa as principais empresas do setor, como Vibra e Raízen, também já apontou riscos de falta de combustível.
Em nota, a Petrobras afirma que “continua entregando ao mercado todo o volume de combustíveis produzidos em suas refinarias, que estão operando em carga máxima. A companhia tem ampliado e antecipado entregas às distribuidoras, fornecendo volumes cerca de 15% superiores aos montantes acordados no início do mês”.
Segundo o presidente da Abicom, Sérgio Araújo, o volume de diesel já contratado para importação em abril estaria muito abaixo do padrão mensal do setor. Já o Sindicom enviou ofício ao governo federal apontando riscos ao abastecimento nacional de combustíveis , segundo a Reuters.
Para Adriano Pires, diretor da consultoria CBIE, o risco de desabastecimento é alto, devido a uma combinação de distorções de preços e intervenções do governo no mercado de combustíveis.
Ele lembra que, como o Brasil é importador líquido de diesel, o abastecimento depende necessariamente de compras externas. Nesse contexto, agentes não têm incentivo para importar combustível mais caro no exterior e revendê-lo mais barato no mercado interno. Segundo a Abicom, o preço praticado pela Petrobras está 64% abaixo do mercado internacional.
Outro fator relevante é o chamado custo de reposição. Diante da defasagem de preços, os agentes econômicos tendem a formar estoques de forma preventiva, antecipando possíveis reajustes.
— Não adianta o governo falar que quem não está vendendo diesel é bandido. O mercado funciona assim. Quando sabe que o produto vai aumentar, ele se protege.
Para Pires, o erro foi que o Brasil apostou que a guerra acabaria rapidamente e que o preço do barril voltaria para US$ 60.
— Se a gente tivesse aumentado devagarinho, hoje a diferença não seria de 40%, mas de 10%, e aí você não teria tanta especulação.
Pires explica que, atualmente, o Brasil convive com quatro referências de preços para o diesel. Há o produto vendido por refinarias com subvenção, além de volumes comercializados a preços internacionais por meio de leilões da Petrobras, importadoras e refinarias privadas. Esse cenário cria uma desorganização no mercado, especialmente porque o governo busca pressionar agentes a vender abaixo da paridade internacional, afirma.
Para ele, os preços devem continuar elevados ao longo do ano:
— Mesmo com o fim da guerra, o petróleo não vai voltar diretamente para US$ 60. Deve permanecer em um patamar alto, em torno de US$ 75, em média.
Navios
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que importadores privados de combustíveis estão desviando para outros países navios contratados inicialmente para abastecer o Brasil. Em nota, a Abicom respondeu à afirmação da presidente. Para a associação, o “desvio de diesel” por importadores privados não pode ser tratado como irregularidade ou prática ilícita.
“Trata-se de uma dinâmica do mercado internacional, na qual cargas podem ser redirecionadas conforme condições comerciais, especialmente em cenários de alta volatilidade de preços e escassez global.”
O GLOBO
20/março/2026
Por Ana Carolina Diniz