
Combate às fraudes e à sonegação: veja o que o setor de combustíveis cobra do próximo presidente.
Entidades pedem reforço na fiscalização, punições mais rigorosas e mudanças na cobrança de impostos. Setor também defende ampliar a atuação conjunta de órgãos públicos para combater o crime organizado.
O setor de combustíveis quer que o próximo presidente e o Congresso mantenham e ampliem as ações de fiscalização contra fraudes, adulterações e falsificações, além de combater a sonegação de impostos e a atuação de organizações criminosas.
O g1 entrou em contato com as entidades do setor para entender quais são as principais demandas. Entre elas estão o reforço da estrutura da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a integração entre órgãos públicos, o compartilhamento de informações de inteligência e o aumento da efetividade das punições.
As associações também defendem a antecipação da cobrança monofásica de impostos sobre o etanol hidratado. Nesse sistema, a tributação ocorre em uma única etapa da cadeia, medida que, segundo as entidades, pode reduzir brechas para a sonegação.
As propostas envolvem tanto o Poder Executivo quanto o Congresso Nacional. As entidades querem que o combate às irregularidades continue sendo uma prioridade após as eleições, com medidas que dificultem a atuação de empresas que descumprem as regras e prejudicam a concorrência.
Punições mais rigorosas
A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) considera que as operações iniciadas no ano passado, a partir da Operação Carbono Oculto, representaram um avanço no combate à atuação de organizações criminosas no mercado de combustíveis.
Para a entidade, o próximo governo deve dar continuidade às ações e manter a articulação entre os órgãos públicos, com a participação do setor privado.
A Fecombustíveis defende três frentes principais:
- Manutenção das operações integradas: dar continuidade ao trabalho conjunto dos órgãos públicos e ampliar a contribuição do setor privado no enfrentamento ao crime organizado e às irregularidades.
- Punições mais rigorosas: apoiar, no Congresso Nacional, propostas que aumentem as penalidades para quem descumpre as leis e provoca concorrência desleal.
- Antecipação da cobrança monofásica sobre o etanol hidratado: adiantar a implementação da medida prevista na Reforma Tributária para reduzir brechas utilizadas na sonegação de impostos e em outras irregularidades.
A entidade avalia que o enfrentamento ao crime organizado e às práticas ilegais precisa permanecer entre as prioridades do próximo governo.
Rigor na lei
A Federação Nacional dos Empregados em Postos de Serviços de Combustíveis e Derivados de Petróleo (Fenepospetro), entidade que representa os trabalhadores em postos, pede aos próximos ocupantes da Presidência da República e do Congresso Nacional ações estruturadas contra a adulteração de combustíveis.
As demandas envolvem:
- O aumento do efetivo de fiscalização;
- A celeridade nas punições;
- E a criação de leis específicas para o setor.O presidente da Fenepospetro e do Sinpospetro do estado do Rio de Janeiro, Eusébio Luís Pinto Neto, cobra o fortalecimento da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A proposta é ampliar o número de fiscais e direcionar investimentos para tecnologias antifraude.”É estruturar a ANP para que ela esteja preparada do ponto de vista tecnológico e humano para fazer frente a essas fiscalizações”, afirmou o dirigente.
A federação exige a intensificação da vigilância em toda a cadeia produtiva. A medida inclui o fortalecimento das atuações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), da Receita Federal e das Secretarias da Fazenda.
Segundo Pinto Neto, a velocidade nos processos judiciais é fundamental para combater as irregularidades. “O que falta é aplicar a legislação com rigor. A Justiça tem que ser mais ágil para punir essas pessoas”, disse.
Para a próxima legislatura do Congresso Nacional, a entidade aponta a necessidade de aprimoramento das normas atuais. O foco é estabelecer regras para todas as etapas do mercado de combustíveis.”
É criar uma legislação específica voltada para a regulamentação da revenda, em todas as suas fases da cadeia produtiva”, declarou o presidente.
A modernização tecnológica no momento do abastecimento é outra cobrança central. O objetivo é desenvolver mecanismos práticos que permitam ao consumidor verificar a qualidade e a quantidade do produto na bomba.
“A aferição deveria mudar. A tecnologia avançou e a aferição continua a mesma há praticamente 100 anos”, concluiu.
Combate ao mercado irregular
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), entidade que reúne as principais distribuidoras de combustíveis do país, elaborou uma agenda com propostas para o setor, voltada aos candidatos à Presidência da República para o mandato de 2027 a 2030.
As empresas representadas pela associação respondem por 60% do mercado de combustíveis líquidos e 75% do comércio de lubrificantes, em um segmento com faturamento anual de R$ 881 bilhões.
Uma das principais preocupações levadas aos políticos é o avanço do mercado irregular. Cálculos do setor indicam que a concorrência desleal, as fraudes operacionais e a sonegação geram perdas de R$ 61 bilhões anuais.
Desse montante, R$ 14 bilhões correspondem a impostos não arrecadados e R$ 10 bilhões derivam de fraudes nas operações.
Para mitigar as perdas fiscais, a principal defesa do Sindicom é também a inclusão antecipada do etanol hidratado na tributação monofásica do ICMS.
🔎Tributação monofásica: é quando o imposto é cobrado apenas uma vez na origem da cadeia, com valor fixo por litro, modelo que já vigora para a gasolina, o diesel e o GLP. A mudança visa reduzir as vulnerabilidades e assimetrias que favorecem devedores contumazes no regime plurifásico atual.
O presidente-executivo do Sindicom, Augusto Salomon, afirma que a simplificação tributária é indispensável para estancar a evasão e moralizar o mercado.
“O abastecimento do país depende de uma cadeia complexa, que envolve infraestrutura, logística, regulação, tributação e fiscalização”, diz o executivo.
O planejamento do setor estipula ações imediatas para os primeiros 100 dias da nova gestão federal. Em meio à volatilidade dos preços do petróleo, a agenda estratégica proposta pela Sindicom ao próximo governo divide-se em 6 áreas de atuação:
- Estruturação da ANP: recomposição orçamentária e técnica para garantir autonomia e capacidade de fiscalização com tecnologia de dados.
- Combate à irregularidade: integração permanente entre Polícia Federal, Receita Federal, ANP e Ministérios Públicos para inviabilizar financeiramente o crime organizado e regulamentar o devedor contumaz.
- Segurança jurídica e tributária: expansão do regime monofásico de impostos e fim de distorções que afetam a concorrência.
- Infraestrutura e logística: incentivo a investimentos privados em ferrovias, dutos e terminais, com o objetivo de diminuir a dependência do transporte rodoviário.
- Marco regulatório: criação de regras estáveis que acompanhem mudanças tecnológicas e atraiam investimentos de longo prazo.
- Transição energética: avanço na descarbonização por meio de combustíveis renováveis e aprimoramento de políticas como o RenovaBio, mantendo a garantia de abastecimento nacional.
Maior cooperação
O Instituto Combustível Legal (ICL) defende a continuidade e a ampliação das ações contra o crime organizado, as fraudes e a adulteração de combustíveis e lubrificantes.
Para o instituto, o próximo governo deve ampliar a capacidade de fiscalização do Estado e fortalecer a cooperação entre órgãos públicos e empresas privadas.
Uma das principais demandas é o fortalecimento institucional e orçamentário da ANP, para que a agência tenha melhores condições de monitorar o mercado e identificar irregularidades com mais rapidez.
O ICL também defende:
- Mais rastreabilidade: ampliar o uso de ferramentas que permitam acompanhar as operações do setor.
- Compartilhamento de informações: estimular a troca de dados entre União, estados e municípios para melhorar a identificação de fraudes.
- Manutenção das operações integradas: reunir órgãos públicos e setor privado em ações de fiscalização e inteligência.
- Fiscalização técnica e inteligência financeira: combinar esses recursos com a cooperação entre os diferentes níveis de governo para tornar a resposta às irregularidades mais eficiente.
- Regras tributárias mais simples: avançar na cobrança monofásica do ICMS sobre o etanol hidratado e outros fins, com o objetivo de ampliar a rastreabilidade das operações e reduzir oportunidades para irregularidades fiscais.
Avanço de projetos
Para a próxima legislatura, o ICL considera prioritária a conclusão da tramitação de duas propostas que ampliam os instrumentos de fiscalização e combate às irregularidades no mercado de combustíveis.
São elas:
- PLP 109/2025: permite que a ANP acesse informações fiscais dos agentes regulados para fins de fiscalização e regulação, preservado o sigilo legal.
- PL 399/2025: prevê novas penalidades para infrações relacionadas à comercialização de combustíveis e biocombustíveis, incluindo falsificação, adulteração e outras práticas irregulares.
O ICL também pede o aprimoramento do RenovaBio, especialmente no cumprimento das metas relacionadas aos CBIOs, e o desenvolvimento de ferramentas para monitorar a molécula do combustível e as informações fiscais.
Entre as medidas citadas estão o aperfeiçoamento do aplicativo ANP com vc, voltado à defesa do consumidor, e a criação do Sistema Nacional de Troca de Informações do Segmento de Combustíveis pelas Secretarias Estaduais de Fazenda (Sinac).
Para o instituto, a aprovação dos projetos, somada às mudanças tributárias, pode ampliar a capacidade do poder público de prevenir fraudes e proteger consumidores e empresas que atuam dentro das regras.
O presidente do ICL, Emerson Kapaz, ressalta que uma eventual mudança de governo não deveria interromper as medidas já adotadas.
“O combate ao crime organizado, às adulterações e fraudes exige continuidade, integração e instrumentos modernos de fiscalização. O mais importante é que o próximo governo e a próxima legislatura mantenham essa pauta como prioridade, com equilíbrio, segurança jurídica e foco permanente na proteção do consumidor”, afirma.