
É preciso respeitar as dinâmicas do mercado.
Preços respondem à lógica de oferta e demanda, e o combustível mais caro é sempre aquele que falta.
O setor de combustíveis atravessa hoje um de seus momentos mais críticos. A escalada das tensões no Oriente Médio e a instabilidade em regiões produtoras voltaram a pressionar as cotações do petróleo, impondo volatilidade aguda que ameaça a oferta global. Para compreender o impacto dessa crise no bolso do brasileiro, é fundamental analisar o mercado não como evento isolado no posto, mas como uma cadeia integrada que se estende do refino e importação à distribuição e à revenda.
Dentro dessa estrutura, a distribuição ocupa o papel de “coluna vertebral”. É esse elo que exerce a função estratégica de conectar refinarias e importadores ao consumidor final, garantindo que a energia motora do país flua sem interrupções. Em cenário de interdependência tão profunda, choques externos repercutem com rapidez sobre toda a cadeia. No Brasil, essa dinâmica é ainda mais sensível: com cerca de 30% do diesel consumido vindo do exterior, o repasse das oscilações internacionais torna-se inevitável.
A vulnerabilidade externa costuma ser ofuscada por diagnósticos apressados. É fundamental reconhecer que o mercado brasileiro é regido pela livre concorrência, e a formação de preços resulta da disputa entre múltiplos agentes. Afastar a percepção equivocada de cartelização é o primeiro passo para um debate honesto. O valor nas bombas não é fruto de arbítrio, mas o somatório de cotações globais, carga tributária e custos logísticos reais.
A complexidade para manter um país do tamanho do Brasil abastecido exige uma engenharia monumental. Garantir que o combustível alcance cada município envolve uma logística multimodal que combina dutos, ferrovias, navios e caminhões. Manter essa engrenagem ativa 24 horas por dia demanda planejamento constante para superar gargalos e gerir estoques. Qualquer falha coloca em risco a segurança do abastecimento. Somada ao transporte, há a complexidade das misturas obrigatórias. A adição de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, exige rigor técnico e controle de qualidade permanente, impactando custos operacionais e a eficiência da rede.
Segundo estudo da consultoria LCA, o setor de distribuição movimenta 137 bilhões de litros ao ano e sustenta 7,3% do PIB do comércio nacional. Ainda assim, opera com margem bruta de 5%. Isso evidencia um setor de alta eficiência e baixo excedente, o que o torna extremamente vulnerável a instabilidades ou mudanças bruscas de regras.
Para mitigar a crise, o poder público busca equilibrar o alívio social e a preservação do mercado por meio de medidas fiscais e regulatórias, como a desoneração do diesel e subsídios temporários. Paralelamente, avançam no Congresso propostas como os PLs 399/25 e 109, que buscam reforçar mecanismos de controle e transparência, tentando dar uma resposta institucional à volatilidade.
Contudo é preciso cautela para que o remédio não se torne um veneno. Buscar culpados ou ameaçar punições aos agentes da ponta é um equívoco que desorganiza o mercado, pois preços respondem à lógica de oferta e demanda, e o combustível mais caro é sempre aquele que falta.
Embora o apoio fiscal seja necessário em momentos de crise, a solução definitiva reside na previsibilidade e na clareza regulatória. Devemos desconfiar de soluções simplistas e intervenções diretas, pois o único caminho para proteger a economia e o consumidor é o respeito às dinâmicas de mercado e o reconhecimento da complexidade técnica dessa cadeia integrada.
David Zylbersztajn, presidente do Conselho de Administração do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes, foi diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.