
Focar na distribuição de combustíveis é mirar no alvo errado.
Setor representa só cerca de 5% do preço final, mas agenda política ignora os reais fatores que pesam no preço da bomba.
A margem bruta das distribuidoras de combustível equivale a cerca de 5% do preço final pago pelo consumidor, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O dado contrasta com a narrativa recorrente que coloca o setor no centro do debate sobre reajustes. E tem uma implicação direta para a política energética: ao focar no elo errado, o debate regulatório ignora os determinantes reais do preço e arrisca enfraquecer a estrutura que mantém o país abastecido.
O custo do petróleo no mercado internacional, a variação cambial e a carga tributária respondem pela maior parte do valor pago na bomba. O petróleo é a parcela de maior peso, com preço definido no mercado global, cotado em dólar e sujeito a fatores geopolíticos alheios ao controle nacional. É o caso das tensões no Oriente Médio e do risco de fechamento do Estreito de Ormuz, uma das vias marítimas mais importantes do mundo, por onde passa quase um quinto do petróleo mundial. O câmbio pode intensificar ou atenuar esse efeito dependendo da cotação da moeda americana, o que explica por que o preço na bomba pode subir mesmo quando o do barril se mantém estável e vice-versa.
Gustavo Madi, economista da LCA Consultoria, detalha em entrevista ao Estúdio JOTA a extensão dessa instabilidade. “Qualquer oscilação no dólar ou no mercado internacional é transmitida rapidamente para os custos de transporte e de importação, já que o Brasil depende do mercado externo para complementar a produção, especialmente de diesel.”
á a carga tributária, embora varie conforme o combustível e a metodologia de cálculo, tem peso expressivo em qualquer cenário. Madi, com base em dados da ANP e da Receita Federal, estima que os tributos respondam por 16% do preço final do diesel.
Nesse contexto, a margem das distribuidoras ocupa um espaço proporcionalmente pequeno. “É compatível com o que se pratica internacionalmente. São margens relativamente baixas; as distribuidoras ganham no volume”, explica Marcio Lago, professor e pesquisador da FGV Energia. O que explica esse valor é a combinação entre estrutura de custos e competição, segundo Madi. “Quando há um reajuste na refinaria, a estrutura de custos da distribuidora para movimentar aquele combustível permanece essencialmente a mesma. A concorrência acirrada entre elas mantém as margens sob controle constante, funcionando como um mecanismo natural de eficiência.”
O que está por trás dos 5%
Entender o que essa margem financia é o que permite avaliar o risco de comprimi-la. Na prática, as distribuidoras fazem o combustível sair das refinarias e terminais portuários e chegar a cada posto do país, num território de extensões continentais, em que o modal rodoviário responde por 65% de todas as cargas escoadas. Mantêm estoques estratégicos que evitam desabastecimento em greves ou crises de suprimento e garantem que o produto passe por um rigoroso controle de qualidade conforme exigido pela ANP.
A essas funções se soma o risco da importação, que também recai sobre as distribuidoras. O Brasil depende de importações para complementar a oferta interna de diesel, combustível essencial para o transporte de cargas e com impacto direto no custo de toda a cadeia produtiva. Segundo a ANP, cerca de 30% do diesel consumido no país vem do exterior.
“A Petrobras responde por quase toda a oferta interna, mas não vem participando do esforço de importação, por conta da alta do petróleo e do conflito no Oriente Médio. Quem complementa a produção nacional e garante o abastecimento em todas as regiões do país são os importadores e o setor de distribuição”, afirma David Zylbersztajn, presidente do Conselho de Administração do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom). Já Madi, da LCA Consultoria, reforça o que isso significa operacionalmente. “A distribuidora precisa garantir o suprimento mesmo em cenários de escassez global, assumindo riscos de estoque.”
A dimensão econômica do setor ajuda a calibrar o que estaria em jogo numa intervenção mal direcionada. O setor transporta 137 bilhões de litros de combustível por ano, abastece 200 mil veículos a cada hora em todos os municípios do país, representa 7,3% do PIB do comércio brasileiro e fatura R$ 881 bilhões por ano, segundo a LCA Consultoria. Emprega 447 mil pessoas, com massa salarial de R$ 18,6 bilhões, e responde por arrecadação tributária estimada em R$ 232 bilhões em 2025.
“Sem as distribuidoras, haveria desabastecimentos frequentes, estoques caros e aumento geral de preços, com perda direta de produtividade nacional. O combustível mais caro que existe é aquele que não está disponível”, defende Zylbersztajn.
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